Humanos/desumanos:
Para passar bons momentos e tentar me acalmar do julgamento do “Mensalão”, retornei ao Caneco Gelado do Mario. Agora de roupagem nova. Moderna, até. Conheci aquele maravilhoso lugar, no tempo que era chamado de “pé-sujo”. Não perdeu estas culinárias características e pelo visto não perderá jamais, pois as mantêm, a começar por sua entrada (balcão) diria triunfal, como o melhor “pé-sujo” da cidade: salgados, sanduíches, petiscos, peixes, carnes, pratos simples e sofisticados, etc.etc. Agora, no seu interior, de roupagem nova.
Seu proprietário, que dá nome a casa, é um simpático e educado senhor que aportou aqui, trazido por alguma nau portuguesa, felizmente para nós, e lembra aquele craque de bola, infelizmente não existe mais, que jogava bem em todas as posições: atende no balcão, cozinha (e, como!), vai até ao salão para atender alguma autoridade,um amigo, faz as contas, etc. Cercado por um exército de seguidores, que sob seu comando, vão dando conta. Seu dia, pelo visto, começa cedo e termina tarde. Faz tudo com boa vontade, pois a qualidade dos pratos é inegável. Trouxe a deliciosa tradição lusitana, para a terra de Arariboia.
Assim é que, fui com a bela e terna Mme. RJ, que já me aguardava no local. Como é pontual Mme. RJ! Esta, já sorvia sua indefectível água mineral com gás. Pedi bolinhos de bacalhau, um dos pontos fortes. Comecei a acreditar no paraíso. Ou quem sabe estar Noruega e saborear aquele peixe que lhe dá notoriedade... Vieram sequinhos e crocantes. A gula é um dos sete pecados capitais e virando as costas para a mesma, pedimos uns pasteizinhos de crustáceos. Adoráveis. Senti-me tão bem, que perdoei o trânsito tão confuso que nos cerca... Experimentamos um de aipim com camarão, que nos fez sorrir novamente. Existem outros. Vários são os pratos da casa, onde inúmeros moradores da fauna marinha predominam. Mas, notei que existem aqueles mais populares, onde a fartura dos mesmos se faz notar. Tínhamos pedido um arroz de brócolis com polvo, que o Mario já nos preparava. Não podíamos abusar, pois queríamos chegar ao lar, sãos e salvos, para assistir o final da Avenida Brasil...
O arroz de brócolis veio enfeitado com aquele molusco da classe Cephalodopa, da ordem Octopoda. Generoso. Fumegante. Que, caro leitor, regado no azeite, transportou-nos para terras desconhecidas, do além-mar.
Pena que não tínhamos um estômago de avestruz.
Á noite sonhei com o Caneco Gelado do Mario, e vi numa mesa: Eça de Queirós, Luis de Camões, Fernando Pessoa, Jose Maria de Bocage comendo umas sardinhas fritas e conversando entre si. Pareceu-me que riam, de uma tirada, do último citado. Numa mesa ao fundo, o imortal Jose Saramago e ao lado, o não menos ilustre Mario Soares. Percebi a presença dos famosos Eusébio e Coluna, futebolistas da melhor estirpe.
Mario deslizava por estes excelsos personagens, abastecendo as mesas com aquela qualidade e fidalguia portuguesa.
-"É uma casa portuguesa com certeza...", imaginei ouvir suavemente...
Acordei feliz.
f.a.